Frei Antônio das Chagas (1631-1682)
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Deus pede hoje estrita conta do meu tempo.
E eu vou, do meu tempo dar-Lhe conta.
Mas como dar, sem tempo, tanta conta.
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?
Para ter minha conta feita a tempo
O tempo me foi dado e não fiz conta.
Não quis, tendo tempo fazer conta,
Hoje quero fazer conta e não há tempo.
Oh! vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passa-tempo.
Cuidai, enquanto é tempo em vossa conta.
Pois aqueles que sem conta gastam tempo,
Quando o tempo chegar de prestar conta,
Chorarão, como eu, o não ter tempo.
👉Reflexão sobre o Soneto “Conta e Tempo”, de Frei Antônio das Chagas
O Soneto “Conta e Tempo”, de Frei Antônio das Chagas, insere-se profundamente na tradição da poesia barroca portuguesa, marcada pela tensão entre o efêmero e o eterno, entre a vida terrena e a realidade espiritual.
Como religioso franciscano, o poeta escreve a partir de uma consciência aguda do tempo como dom divino e, ao mesmo tempo, como responsabilidade moral.
No poema, o “tempo” não é apenas uma sucessão de instantes, mas um contador silencioso da existência humana. Cada momento vivido aproxima o homem inevitavelmente do fim, e é justamente essa marcha contínua que desperta o tom de advertência espiritual do soneto. Frei Antônio das Chagas dialoga com a ideia cristã do tempus fugit, muito presente no Barroco, lembrando que os dias passam mesmo quando o ser humano não se dá conta disso.
A palavra “conta”, presente no título, carrega um duplo sentido: refere-se tanto à contagem dos dias quanto à prestação final de contas diante de Deus. O poeta sugere que o tempo não passa sem deixar consequências; ele registra escolhas, omissões, pecados e virtudes. Assim, viver não é apenas existir, mas preparar-se para esse encontro definitivo com a eternidade.
O tom moralizante do soneto não é agressivo, mas pastoral. O eu lírico não se coloca acima do leitor; pelo contrário, fala como alguém igualmente submetido à fragilidade do tempo. Essa característica confere ao poema uma dimensão meditativa, quase devocional, convidando o leitor à introspecção e ao arrependimento sincero.
Do ponto de vista formal, o soneto mantém a estrutura clássica, reforçando a ideia de ordem em contraste com o desordenamento da vida humana quando se afasta de Deus. A linguagem, embora marcada por conceitos abstratos, conserva clareza suficiente para comunicar a urgência da conversão e da vigilância espiritual.
Em síntese, o Soneto “Conta e Tempo” é uma poderosa reflexão sobre a brevidade da vida e a seriedade da existência cristã. Frei Antônio das Chagas transforma o tempo em mestre severo, mas justo, que ensina ao homem a necessidade de viver com sabedoria, consciência e fé. O poema permanece atual porque continua a lembrar que cada instante vivido é, ao mesmo tempo, graça recebida e responsabilidade assumida.
¹² Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios.
Salmos 90:12

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